Os olhos de Carolina foram
imediatamente atraídos pelas três peças metálicas, de diferentes tamanhos, que
tilintaram quando a mãe as colocou sobre a bancada da cozinha, ao lado da
máquina de café. Os seus olhinhos brilharam, cobiçosos.
- Ó mãe – começou ela,
com a fala arrastada que usava quando queria saber coisas. – O que é aquilo que
puseste ali em cima?
- Onde? – A mãe arranjava
apressadamente o lanche que a Carolina levaria nesse dia para a escola, por
isso, nem desviou o olhar. – Já acabaste de comer? – Perguntou.
A Carolina enfiou mais
uma colherada de cereais na boca e, enquanto mastigava, disse:
- Estou a comer. Mas não
me respondeste.
- Respondi a quê,
filhota? Anda, despacha-te, vamos chegar atrasadas.
- O que é aquilo que
puseste ali em cima? – Repetiu a menina, fixando novamente os três círculos de
metal.
A mãe lá seguiu o seu
olhar e respondeu.
- São moedas.
- Moedas – repetiu a
menina, para si própria. – E são tuas?
- São. – A mãe saiu por
momentos da cozinha, onde mãe e filha se preparavam para enfrentar mais um dia.
- Precisas delas? –
Insistiu a Carolina, elevando um pouco a voz, para se fazer ouvir. A mãe não
respondeu, provavelmente porque não teria ouvido.
A menina de caracóis
loiros e olhos azuis pôs mais uma colherada do seu pequeno-almoço na boca e
mastigou pacientemente. A mãe regressou à cozinha, com a sua mochila cor-de-rosa,
onde colocou o lanche.
- Precisas delas? –
Voltou a perguntar Carolina.
A mãe parou então,
acercando-se da mesa onde a menina estava sentada, em frente a uma tigela de
cereais com leite. Olhou-a, franzindo a testa.
- Carolina, já te
expliquei que o dinheiro serve para comprar as coisas que fazem falta para a
casa e não são brinquedos. Não podes ficar com elas.
A Carolina não disse nada
e acabou de comer. Mas os seus olhitos recaiam, volta e meia, sobre as três
moeditas brilhantes.
- Já acabei – disse,
saindo da cadeira. Pegou na tigela com as duas mãos e levou-a até à mãe, que
estava junto do lava-loiças. A mãe estendeu o braço para receber os utensílios
das mãos da filha. Esta fixou o olhar cintilante na mãe.
– São só três moedas – afirmou.
– Dão para comprar muita coisa? E se forem só duas moedas?
A mãe não conseguiu
esconder um sorriso, perante a expressão doce da filha de quatro anos. Pousou a
tigela sobre o lava-loiças e baixou-se de modo a ficar ao nível do olhar da
menina.
- E para que queres tu as
moedas? – Perguntou com voz suave.
A menina encolheu os
ombros.
- Para nada de especial,
mamã. Só quero guardá-las.
A mãe suspirou. Olhou
para o relógio e verificou que eram quase horas de sair de casa.
- Combinamos uma coisa:
terminamos de nos despachar rapidamente, lavas os dentes, calças os sapatos,
vestes o casaco sem reclamar e poderás receber as moedas. Está bem?
- Sim, mamã!
Carolina cumpriu o
combinado e em breve as três moedas reluziam na palma da sua mão pequena.
- Estás pronta? – Ouviu a
voz da mãe. - Vamos embora!
As duas saíram para a
rua. A mãe queria dar-lhe a mão, mas as moedas atrapalhavam.
- Carolina, segura as
moedas com a outra mão – pediu a mãe, impacientemente.
Carolina assim fez, mas
as suas mãos pequeninas não conseguiram segurar as três moedas e duas delas
caíram para o chão.
- Espera, mãe! – Pediu
ela, aflita, voltando atrás para as apanhar.
- Então, Carolina!
Despacha-te!
Na rua, as pessoas
desviavam-se da menina parada no meio do passeio, recolhendo as duas moedinhas
que deixara cair.
- Já está – disse ela e
voltou a dar a mão à mãe, para prosseguirem caminho.
O sorriso rasgado da
menina revelava a felicidade resultante do seu pequeno tesouro, escondido,
enquanto seguia pela rua com a mãe, em direção à escola.
- Vamos chegar atrasadas!
– Exclamou a mãe, com algum nervosismo. – Depressa! O sinal está verde! Vamos
atravessar – acrescentou, puxando a pequenita pela mão, querendo acelerar o
passo.
Mas a Carolina não
esperava por esse movimento e voltou a deixar cair as moedas, mesmo quando
colocavam um pé sobre a passadeira de peões. As três moeditas rolaram em
direção ao passeio e a menina puxou a mão, para se soltar da mãe e voltou
atrás, para apanhar as moedas.
- Carolina! – Chamou a
mãe, assustada, vendo a filha fugir do seu alcance. Deu um passo atrás,
esticando o braço para agarrar a mochila cor-de-rosa que a pequena trazia às
costas e, no mesmo instante em que tirava o pé da passadeira, um carro cruzou a
estrada velozmente, exatamente no local onde as duas tinham estado segundos
antes.
As pessoas que se
preparavam para atravessar a rua estacaram, assustadas, enquanto a jovem mulher
segurava a menina de grandes olhos azuis nos braços, a salvo no passeio. A mãe
apertou a filha com força, sem que esta se queixasse. Em vez disso, alheia ao
burburinho que a rodeava, a menina abriu a mão, revelando o seu pequeno tesouro,
as três moedas brilhantes.
Lindo. MJ
ResponderEliminarIncrivel...
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