A chuva caía torrencialmente, de um céu cinzento, feio, coberto de nuvens negras e ameaçadoras.
Na rua, os transeuntes caminhavam apressados, com os chapéus-de-chuva abertos, inclinados para a frente, procurando abrigar-se da intempérie. Ninguém se desviava do seu caminho.
A rapariga avançava no meio da multidão de pessoas, igualmente apressada. Sentia frio e procurava proteger-se com o chapéu-de-chuva, lutando contra a força do vento. Uma rajada mais forte arrancou-lho das mãos e depressa deixou de o ver. Como o casaco que trazia vestido não representava um obstáculo ao aguaceiro, rapidamente ficou encharcada.
A chuva criava uma espécie de cortina, dificultando a visão. Não obstante, não impediu que, um pouco mais à frente, vislumbrasse um homem, também sem chapéu e igualmente encharcado. Mas a chuva não o apressava nem lhe dizia que se movesse – o homem permanecia parado, quieto, indiferente à água que escorria pelos seus cabelos. Ela sentiu um misto de curiosidade, surpresa e algo mais forte, que a impeliu na direção do estranho.
Porém, tudo contribuía para lhe dificultar o percurso: ou eram os indivíduos de chapéu-de-chuva e rostos fechados que se atravessavam no seu caminho ou a própria chuva que o escondia.
Quanto mais se aproximava, mais impressionada se sentia. No seu rosto destacavam-se uns olhos negros, profundos. Mas não eram uns olhos alegres; ela adivinhava-lhes tristeza, dor. Era um olhar perdido, de quem procura, incessantemente, o caminho.
Uma força inexplicável continuou a impeli-la na direção do estranho que permanecia na mesma posição, parecendo vir de outro mundo, outra dimensão. E embora rodeado pela multidão de passantes, parecia incrivelmente só.
A rapariga já não andava – corria.
O estranho viu-a. E sorriu. Um sorriso aberto, puro, que teve o poder de parar a chuva e fazer o sol brilhar, varrendo todos os vestígios de nuvens do céu que, agora, resplandecia, claro, azul como um céu de verão. Um sol que era ignorado pelas outras pessoas, sobre quem a intempérie continuava a manifestar-se, implacável, fria.
Agora ela já não corria. Estava já tão perto que podia distinguir todas as linhas do seu rosto – um rosto belo. Continuou a furar pelo meio das pessoas, mas, apesar da distância percorrida, parecia nunca mais chegar. Era como se avançasse um passo e ele recuasse três. Aos pouco, o seu rosto foi-se tornando menos nítido e começou a desfazer-se no ar.
Recomeçou a correr, com uma pontada de urgência. O sol voltou a esconder-se atrás das enormes e ameaçadoras nuvens negras e, quando a rapariga chegou ao local onde o vira, a chuva voltara a cair sobre o seu corpo.
Olhou em volta, ansiosamente. Nada. O estranho tinha desaparecido.
Subitamente, ela deu por si a chorar, não no meio da rua, debaixo de um forte aguaceiro, mas no seu quarto, na sua cama e bem longe da rua onde vira o estranho homem. O sentimento de perda foi tão grande que, por muito tempo, deixou que a sua mente vagueasse, abalada pelo sonho que tivera.
O som cadenciado da chuva a bater no telhado trouxe-a de volta à realidade. Sabia que não conseguiria voltar a dormir, por isso, apesar de ainda faltar algum tempo para o despertador tocar, levantou-se e foi preparar-se para iniciar mais um dia de trabalho.
Saiu de casa, para a manhã chuvosa, esperando percorrer a distância que a separava do local de trabalho sem grandes percalços, abrigando-se da chuva como todos os transeuntes com quem se cruzava.
Seguia tão distraída com os seus pensamentos que nem se apercebeu do homem que vinha na sua direção e com quem acabou por chocar.
- Desculpe – murmurou, apressadamente, escudando-se atrás do chapéu-de-chuva e continuando a andar.
Não viu quando um olhar negro a seguiu, vendo-a afastar-se por entre o aglomerado de gente. O estranho fixou-a insistentemente, como que à espera que ela se voltasse e o visse. Mas isso não aconteceu e o homem virou-se, não parecendo nada preocupado com a chuva, avançando, por entre a multidão e destacando-se da mesma, uma cabeça descoberta num mar de chapéus-de-chuva.
Nãofazia ideia que escrevia tão bem. Surpresa boa. Execelente e bonito texto, para retirar uma lição de vida que lá está, bem nas entrelinhas. beijinho M.José
ResponderEliminarMuito bem, professora... Um texto realmente muito bom...
ResponderEliminarPS: Temos saudades suas...