Destino

Lembro-me perfeitamente de tudo - como se tivesse sido ontem… Mas já lá vão tantos anos… Recordo o medo, a terrível sensação de solidão que tomou conta de mim desde o princípio – o aterrador princípio, quando a tempestade começou e as águas se tornaram rebeldes e assustadoras, parecendo querer engolir o nosso barco. Não sabia exactamente em que parte do Oceano Pacífico me encontrava e, devo confessar, naquele momento, isso era o que menos importância representava para mim.
Os trovões faziam-se ouvir acima do barulho do oceano furioso e os relâmpagos cortavam o ar, iluminando o céu escuro como breu. Eu lutava contra o pânico, o que era cada vez mais difícil dada a histeria dos outros passageiros. Mas era uma rapariga forte de espírito, habituada ao sofrimento e à dor e sabia como lidar com aquele tipo de sentimento. Forcei-me a manter a mente límpida, consciente de que toda a ajuda era necessária.
Lembro-me de ter uma menina dos seus nove anos sempre agarrada a mim, de a abraçar para afastar os seus fantasmas e o tremor do seu jovem corpo. Tentei conservá-la junto de mim todo o tempo, mas, a certa altura, deixei de a ver. Isso ocorreu quando um raio atingiu o mastro principal do navio e este, a arder, foi embater com toda a violência na casa das máquinas, causando uma grande explosão que incendiou todo o navio.
A partir daí foi completamente impossível controlar a onde de pânico que cresceu desmesuradamente. Pessoas gritavam, correndo de um lado para o outro. Botes eram lançados à água, mas, no meio da confusão geral, havia quem se atirasse para fora do navio, preferindo afogar-se a ser queimado.
Foi um dos piores momentos da minha vida. As pessoas pareciam animais selvagens, não querendo saber uns dos outros, os seus instintos mais primitivos vindo à tona, enquanto lutavam desesperadamente para se salvar, pouco preocupadas em ajudar o próximo. Eu gritava pela rapariguinha que procurara a minha protecção e que agora tinha desaparecido. Temia pela sua vida, porque ninguém iria ajudá-la e eu tinha perfeita consciência de que uma criança não consegue salvar-se sozinha no meio de tanta confusão. Não a encontrei.
De repente, quando o incêndio começou a tomar proporções gigantescas, senti que alguém se lançava contra mim, segurando-me pela cintura, e me levava, em queda livre, para dentro da água fria e medonha.
Gritei, todo o meu ser a revoltar-se contra tal coisa. Não podia deixar a pobre criança sozinha e assustada. Quando o meu corpo embateu na água e mergulhou, fiz todos os esforços para vir à tona. O meu único pensamento ia para a menina que eu deixara no navio. Não podia crer no que tinha acontecido.
E, então, chorei. Se fechar os olhos quase posso sentir as lágrimas que escorriam dos meus olhos e se misturavam com a água salgada e furiosa que me rodeava. Deixei-me ir na corrente, enquanto os meus olhos observavam o espectáculo que o navio em chamas oferecia. Estava muito cansada e quase me esquecera de onde estava. Subitamente, apercebi-me do que estava a acontecer e lutei para chegar junto das outras pessoas, com um único pensamento na minha mente: o de me salvar.
Mas as forças que me restavam eram muito poucas e eu tinha sido apanhada por uma corrente muito forte que me arrastava cada vez mais para longe do navio em chamas.
- Socorro! – Gritei, tentando esquecer o frio que tomava conta do meu corpo, atravessando-me até aos ossos.
A minha voz não conseguiu sobrepor-se à tormenta que me rodeava e, em breve, deixei de ver o brilho fulgurante das chamas que devoravam o navio. Senti-me mais sozinha do que nunca.
Dizem que é nestes momentos que nós tomamos consciência das mais pequenas coisas, que tomamos as decisões mais importantes – quando parece que o fim chegou.
Eu não me recordo de decisões nenhumas, mas ainda hoje tenho presente na minha memória todos os pormenores de que, naquele instante, me dei conta. Mas, sobretudo, recordo o meu último pensamento, antes de cair na inconsciência, quando o mar já estava mais calmo, mas mais assustador do que nunca, com a sua superfície negra e muito quieta, como que à espera de alguma coisa. Senti que tudo à minha volta prendia a respiração, como num momento de antecipação.

E ainda hoje me lembro de ter pensado que o destino possuía as mais estranhas maneiras de se cumprir. Ao tentar salvar-me das mãos do Homem, o meu pai tinha-me enviado para as mãos do destino. De uma forma ou de outra, este teria de ser cumprido. Este foi o meu último pensamento e, depois, senti-me muito mais tranquila.

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